Invasão ao território e atos de racismo evidenciam escalada de violência contra o Povo Purubora em Rondônia
A facilidade com que estranhos transitam pelo perímetro da Escola Estadual Indígena Ywará Purubora revela uma engrenagem que se repete: a omissão do estado encoraja a continuidade das invasões. A comunidade enfrentou a segunda invasão ao seu território. Na ocorrência mais recente, um veículo adentrou o espaço sem autorização e dirigiu-se até a Maloca, espaço sagrado para o povo Purubora. Ao serem abordados e questionados por um morador, os invasores reagiram com deboche, colocaram em dúvida a legitimidade da construção da maloca e chegaram a exigir que o morador falasse na língua Purubora para “provar” sua identidade indígena.

Imagem: Acervo Purubora
O episódio escancara que a insegurança deixou de ser uma ameaça abstrata para se tornar uma rotina de violência física, psicológica e de racismo ostensivo. O avanço de agressões contra os símbolos de resistência do Povo Purubora, que vai desde o atentado a tiros contra a residência da Cacica Hozana Purubora até o incêndio criminoso da Maloca Sagrada e a recente explosão em frente a escola, durante o horário de aula de crianças, demonstra como a ausência de barreiras físicas e de fiscalização permanente transforma os espaços de convivência e ensino em alvos expostos. Sem a proteção territorial efetiva, a comunidade permanece sujeita a investidas que buscam desacreditar a organização social e coagir as lideranças na luta pelo direito constitucional à sua terra.
Linha do tempo: A escalada da insegurança e a resistência Purubora
A cronologia dos fatos demonstra que a falta de proteção jurídica e física no território tem gerado uma escalada contínua de violência e graves violações de direitos:
- Atentado à Residência da Cacica Hozana Purubora ― 18 de Outubro de 2025
A residência da Cacica Hozana Purubora foi alvo de disparos de arma de fogo. No momento dos tiros, um servidor da Funai estava na casa da liderança e a cacica estava na casa de sua filha, também situada na aldeia. O ocorrido foi visto como uma tentativa direta de intimidação e silenciamento da principal liderança do Povo Purubora.
- Incêndio Criminoso da Maloca Sagrada ― 20 de Outubro de 2025
Em um ato contínuo de agressão ao território, a Maloca Sagrada, principal espaço de reuniões e preservação cultural da comunidade, é destruída por um incêndio criminoso.
- Ação Civil Pública e Omissão da SEDUC ― Início de 2026
Diante do aumento das ameaças, o MPF ajuíza Ação Civil Pública contra o Estado de Rondônia. Embora a SEDUC tenha reconhecido formalmente o risco e a necessidade de segurança, o governo estadual passou a contestar a ação na Justiça. Há quase um mês, a comunidade aguarda resposta da SEDUC para o agendamento de uma reunião presencial urgente e nenhuma medida foi tomada.
- Invasão, Deboche e Abordagem Racista na Maloca ― 02 de Agosto
Invasores em um veículo chegam até a Maloca Sagrada. Ao serem questionados, debocham da construção e exigem validação linguística e cultural dos moradores para “provar” que são indígenas.
- Ataque com Explosivos em Frente à Escola, Durante Horário de Aula ― 03 de Agosto
Em um ato grave de intimidação, uma bomba foi detonada em frente à Escola Estadual Indígena Ywará Purubora no momento em que alunos estavam em sala de aula.
Ação da comunidade diante a omissão do Estado
Diante da ausência de resposta e de investimentos públicos em infraestrutura básica de segurança, a própria comunidade Purubora tem buscado meios por conta própria para sinalizar e proteger o território escolar.
Sem muros ou vigilância do Governo do Estado, os próprios moradores financiaram e instalaram uma placa de proibição de acesso em frente à Escola Estadual Ywará Purubora.

Imagem: Acervo Purubora
Conforme relata uma moradora da aldeia, que teve sua identidade preservada por segurança, a instalação da placa para sinalização e tentativa de controle de acesso partiu das famílias que vivem ali diante o abandono governamental:
“Nós mesmos mandamos fazer essa placa. Nós mesmos estamos buscando meios de segurança para a escola e para a comunidade, mas quem deveria estar fazendo isso é o Estado.”
Povo Puruborá exige fim da impunidade e proteção ao território
Em relatos e em nota enviada ao Observatório Socioambiental de Rondônia, a Associação Maxajã (Associação Indígena do Povo Purubora) manifestou-se diante da sequência de agressões e confirmou que, até o momento, não houve nenhum retorno ou providência por parte do Poder Público:
“Estamos reivindicando o mínimo que é a segurança do espaço escolar. Estamos desde Outubro do ano de 2025 sendo ignorados pela SEDUC que se recusa a garantir a segurança da escola Ywara Puruborá. O processo demarcatório nos deixa vulneráveis e o Estado não se importa. Queremos resposta das investigações da queima da Maloca em 2025. São muitos crimes que estão ocorrendo e as providências não são tomadas. Não temos justiça!
Gritamos tanto e não somos ouvidos. Precisamos com urgência de apoio para aumentar a segurança das famílias que resistem no terreno.”
As cobranças da comunidade direcionadas ao Poder Público centram-se na demarcação imediata do Território Indígena Purubora, em uma agenda presencial urgente com a SEDUC e na instalação imediata de infraestrutura de proteção, como muros, cercas, iluminação e vigilância presencial, na Escola Ywará Purubora.
Ao lado do Povo Purubora, o Observatório Socioambiental de Rondônia reafirma que defender o território é salvaguardar a vida, a memória e a dignidade de quem resiste na terra. A inércia do Poder Público perpetua o terror e torna o Estado conivente com as ameaças. É urgente garantir as medidas de segurança e concluir a demarcação do território, sob pena de o Estado ser responsabilizado por novas violações e de a comunidade continuar sendo vítima da violência.



