Deputados de Rondônia abrem a porteira para a boiada do desmatamento passar

Deputados de Rondônia abrem a porteira para a boiada do desmatamento passar
10/06/2026 [email protected]

Com a ativa participação de deputados de Rondônia, propostas aprovadas na Semana do Agro enfraquecem a proteção ambiental.

A “Semana do agro” materializa o “passar a boiada” na questão ambiental. Com propostas apresentadas pelos ruralistas no congresso, sobretudo os representantes da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária), estruturas que trabalham em prol da proteção ambiental são postas para flexibilização e desestruturação.

Os projetos incluem a proibição de que órgãos de fiscalização ambiental apliquem embargos remotamente a partir do uso do monitoramento por satélites (PL 2.564/2025), a redução de unidades de conservação no Pará (PL 2.486/2026), a redução da proteção de campos nativos e vegetação não-florestal (PL 364/2019), e amplia o poder do Ministério da Agricultura para regulações ambientais (PL 5900/2025).

Os deputados federais de Rondônia ativamente contribuíram para que o pacote de flexibilizações caminhasse e fosse aprovado pela Câmara dos Deputados, seguindo para o Senado. Dentre eles, destaca-se o PL 2.564/2025, de autoria dos deputados Lúcio Mosquini (MDB-RO) e Zé Adriano (PP-AC).

O Projeto de Lei 2.564/2025

O PL 2.564/2025 altera as regras de fiscalização ambiental, limitando o poder de atuação imediata de órgãos fiscalizadores.

  • Status Atual: Aprovado na Câmara dos Deputados em 20/05; segue agora para análise do Senado.
  • Autoria: Deputados Lúcio Mosquini (MDB-RO) e Zé Adriano (PP-AC).
  • Impacto Principal: Impõe barreiras à atuação imediata do Ibama e ICMBio em crimes ambientais em andamento, impedindo que agentes adotem ações preventivas antes da conclusão do processo administrativo.

Se por um lado Lucio Mosquini (MDB-RO) adota o argumento de segurança jurídica do produtor rural, entidades ambientais afirmam que esse projeto de lei tem um endereço certo: proteger criminosos de grande porte na Amazônia. 

Na prática, a proibição ao embargo remoto amplia a necessidade de verificação em campo para confirmação da infração, e concede, que antes de embargar, o órgão ambiental tenha que notificar o responsável pela área e conceder prazo para apresentação de esclarecimentos. O embargo, por ser medida cautelar, não rompe com a possibilidade de ampla defesa e contraditório, é apenas um mecanismo preventivo para interromper o dano ambiental.

O enfraquecimento do embargo remoto e da apreensão de bens ampara diretamente quem pratica o desmatamento ilegal, já que em locais isolados da floresta a única forma rápida de impedir que o dano continue é utilizando imagens de satélites e a inutilização das máquinas. Além disso, investigações e monitoramentos associam a urgência de aprovar leis que flexibilizam legislação ambiental ao lobby de fazendeiros da região Norte, que muitas das vezes que acumulam multas ambientais e financiam campanhas políticas locais

O Projeto de Lei 2.564/2025, criado pelo Deputado Federal Lúcio Mosquini (MDB-RO) e Zé Adriano (PP-AC), reflete o histórico cabo de guerra que reflete a política em Rondônia: de um lado, produtores rurais que acusam a fiscalização de asfixiar a economia local por meio de multas automáticas via satélite; do outro, agentes ambientais que alertam que o projeto, ao exigir notificações prévias em uma região tão grande e em áreas isoladas, legaliza o estrago já feito e joga por terra os mecanismos mais eficientes de combate ao desmatamento na Amazônia. 

Na visão do parlamentar e da bancada ruralista, os métodos atuais de fiscalização prejudicam agricultores sem possibilidade de defesa prévia, sendo a principal crítica de Mosquini, o embargo eletrônico automático.

Porém o mecanismo de embargos remotos é extremamente efetivo visto a grande extensão territorial a ser fiscalizada, o reduzido quantitativo de fiscais ambientais e a rápida notificação. Além disso, a vinculação a sistemas bancários e o CAR estabelecem estruturas para frear o financiamento do desmatamento ao bloquear o acesso a crédito rural e subsídios para CPF e CNPJ associados a áreas flagradas.

O sensoriamento remoto é uma ferramenta que vem contribuindo para o enfrentamento à destruição ambiental, conferindo agilidade, assertividade e materialidade às ações dos órgãos fiscalizadores. Além disso, é compatível com a legislação brasileira e utilizado em todo o mundo. Romper com essa ferramenta é romper com esforços constantes de inovação e desenvolvimento tecnológico em proteção da natureza, é apoiar criminosos ambientais e abrir espaço para a boiada da destruição passar.

E como votaram os parlamentares de RO?

A aprovação deste pacote de Projetos de Leis foi viabilizada pelo uso estratégico de votações simbólicas no Plenário da Câmara. Esse modelo acelera a tramitação por meio de um acordo prévio com as lideranças de cada partido, aprovando os textos sem registro de “sim” ou “não” de cada deputado no painel eletrônico. O uso desse formato oculta o voto nominal justamente porque os parlamentares têm plena ciência dos impactos destrutivos dessas medidas, que  aceleram a degradação dos ecossistemas e enfraquecem a fiscalização. 

Nesse cenário, a atuação da bancada de Rondônia foi decisiva. Os 8 deputados que são membros integrados à Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) e atuaram como barreira contra tentativas de obstrução a pedidos de retirada de pauta feitas pela oposição. 

Deputados de Rondônia que são membros da Frente Parlamentar Agropecuária e deram sustentação a esse pacote de projetos são: 

  • Coronel Chrisóstomo (PL) 
  • Dr. Fernando Máximo (UNIÃO)
  • Dr. Lúcio Mosquini (MDB)  autor do PL 2.564/2025 
  • Rafael Fera (PODE) 
  • Cristiane Lopes (UNIÃO) 
  • Maurício Carvalho (UNIÃO) 
  • Thiago Flores (REPUBLICANOS) 
  • Silvia Cristina (PP) 

Senadores de Rondônia que são membros da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA): 

  • Jaime Bagattoli (PL) 
  • Marcos Rogério (PL) 

Referências:

BRASIL. Congresso Nacional. Câmara dos Deputados. Câmara aprova projeto que retoma a redução dos limites da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará. Brasília, DF: Agência Câmara Notícias, 20 maio 2026. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/1274521-camara-aprova-projeto-que-retoma-a-reducao-dos-limites-da-floresta-nacional-do-jamanxim-no-para/. Acesso em: 5 jun. 2026.

BRASIL. Congresso Nacional. Câmara dos Deputados. PL 2564/2025. Brasília, DF: Câmara dos Deputados, 20 maio 2026. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2516808. Acesso em: 5 jun. 2026. 

CAMARGOS, Daniel. Metade dos deputados que aprovaram redução de áreas protegidas em RO são pecuaristas ou foram financiados por proprietários rurais. Repórter Brasil, 20 maio 2021. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br/2021/05/metade-dos-deputados-que-aprovaram-reducao-de-areas-protegidas-em-ro-sao-pecuaristas-ou-foram-financiados-por-proprietarios-rurais/. Acesso em: 5 jun. 2026. 

CASTILHO, Alceu Luís; BASSI, Bruno Stankevicius. De Olho nos Ruralistas lança dossiê sobre financiamento da bancada ruralista. De Olho nos Ruralistas, 18 jul. 2022. Disponível em: https://deolhonosruralistas.com.br/2022/07/18/de-olho-nos-ruralistas-lanca-dossie-sobre-financiamento-da-bancada-ruralista/. Acesso em: 5 jun. 2026. 

CHIAVARI, Joana; LOPES, Cristina Leme; DIDONET, Nina. Congresso avança para limitar embargo remoto e coloca em risco política de combate ao desmatamento. ((o))eco, 26 mar. 2026. Disponível em: https://oeco.org.br/analises/congresso-avanca-para-limitar-embargo-remoto-e-coloca-em-risco-politica-de-combate-ao-desmatamento/. Acesso em: 5 jun. 2026.

FRONER, Mariana; PRETTO, Nicholas. Amazônia Legal concentra 80% do valor de multas ambientais. Nexo Jornal, 21 mar. 2023. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/grafico/2023/03/21/amazonia-legal-concentra-80-do-valor-de-multas-ambientais. Acesso em: 5 jun. 2026. 

PINHEIRO, Karina. Câmara proíbe embargo remoto de área desmatada sem vistoria prévia. ((o))eco, 21 maio 2026. Disponível em: https://oeco.org.br/noticias/camara-proibe-embargo-remoto-de-area-desmatada-sem-vistoria-previa/. Acesso em: 5 jun. 2026. 

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CORREIA, A. D. Alice; LYRIO, Mariana. Quem ganha com a “Semana do Agro”? Instituto Socioambiental, 25 out. 2026. Disponível em: https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/quem-ganha-com-semana-do-agro-na-camara Acesso em: 5 jun. 2026.