Rondônia: Onde a terra é marcada pelo sangue e pelo silenciamento

Rondônia: Onde a terra é marcada pelo sangue e pelo silenciamento
26/05/2026 [email protected]

Os dados do novo relatório da CPT mostram que Rondônia permanece entre os estados com maior índice de conflitos no campo no Brasil. 

Apesar de uma aparente redução nos números gerais, os conflitos por terra e água seguem devastando comunidades tradicionais no Brasil. Rondônia aparece como um dos estados mais atingidos, com 111 registros de violência, consolidando-se como palco de graves disputas fundiárias e pressões sobre povos indígenas, posseiros e quilombolas. 

Em 2025, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) registrou 1.593 conflitos no campo, sendo 1.286 relacionados ao eixo Terra. A maioria correspondeu a violências contra ocupação e posse (1.186 casos), enquanto 100 foram ações de resistência, principalmente ocupações organizadas por camponeses sem terra, que também promoveram nove acampamentos de luta. Houve aumento em relação a 2024, quando foram registradas 80 ações de resistência, demonstrando que, mesmo diante da violência, as comunidades seguem mobilizadas.

As principais formas de agressão foram contaminação por agrotóxicos (127 casos), invasões (193) e pistolagem (113). O Maranhão liderou os registros, com 190 ocorrências, seguido pelo Pará (142), Rondônia (111) e Bahia (101). No caso de Rondônia, os números reforçam a gravidade das disputas fundiárias e a pressão sobre comunidades tradicionais, que enfrentam ameaças constantes e falta de proteção estatal.

Os povos indígenas foram os mais atingidos em todo o país, com 258 ocorrências, seguidos por posseiros (248), quilombolas (244) e sem-terra (153). As violências por omissão e conivência do poder público também cresceram, com 224 registros, refletindo a falta de demarcação de terras indígenas e titulação de territórios quilombolas. Entre os principais agentes causadores, os fazendeiros lideram com 515 casos, seguidos por empresários (180), governo federal (114) e governos estaduais (85).

No eixo Água, foram registrados 148 conflitos, o menor número dos últimos dez anos. O Pará concentrou o maior número de casos (21), seguido pela Bahia (19) e Minas Gerais (18). Ainda assim, os povos indígenas seguem como os mais violentados, com 42 ocorrências, seguidos por quilombolas, pequenos agricultores e ribeirinhos. Mineradoras, empresários, garimpeiros e fazendeiros figuram entre os principais responsáveis pelas agressões, que incluem poluição de rios, contaminação de lençois freáticos e impactos de hidrelétricas.

Violência rural persiste apesar da queda em números 

Em 2024, os conflitos no campo atingiram números recordes: foram 1.768 ocorrências por terra, o maior índice da década, e 266 conflitos por água, com destaque para o aumento explosivo de contaminação por agrotóxicos (276). 

Já em 2025, houve uma redução numérica, 1.286 conflitos por terra e 148 por água, mas a CPT alerta que essa queda não reflete melhora real, e sim subnotificação e intensificação de estratégias de intimidação. 

Nos últimos dois anos, os povos indígenas continuam sendo os mais violentados, seguidos por quilombolas e posseiros. Os fazendeiros continuam liderando como os principais agentes causadores, acompanhados por empresários e mineradoras. Rondônia aparece em destaque em ambos os relatórios: foram 119 ocorrências em 2024 e 111 em 2025, consolidando-se como um dos estados mais afetados pelas disputas fundiárias e pela pressão em comunidades tradicionais.  

A urgência por políticas públicas e direitos territoriais 

Mesmo diante da redução numérica em alguns indicadores, o relatório da CPT evidencia que a violência no campo brasileiro permanece estrutural e sistemática, ou seja, não se trata apenas de episódios isolados, mas de um padrão contínuo de agressões e violações. Rondônia, com 111 registros em 2025, exemplifica esse quadro: o estado é, historicamente, um dos epicentros da disputa fundiária, onde comunidades indígenas, agricultores familiares e quilombolas enfrentam invasões, pistolagem e contaminação por agrotóxicos. A pressão sobre os territórios não decorre apenas da ação direta de fazendeiros e empresários, mas também da omissão do poder público, que falha em garantir demarcação, titulação e proteção de terras tradicionais. 

A Comissão Pastoral da Terra ressalta que a persistência dessas práticas demonstra a necessidade urgente de políticas públicas eficazes e da garantia de direitos territoriais e sociais dos povos afetados. O relatório completo pode ser acessado diretamente no site da CPT (https://cptnacional.org.br/caderno/conflitos-no-campo-brasil-2025/).