Sem planos diretos contra o El Niño, ações da Prefeitura de Porto Velho e do Governo de Estado servem apenas como curativos temporários.
Quando a Prefeitura de Porto Velho e o Governo de Rondônia anunciam que estão limpando terrenos para evitar o fogo e utilizando satélites para vigiar a floresta, a impressão é de que tudo está sob controle. Mas, na vida real de quem mora nas periferias e em comunidades ribeirinhas, a história é bem diferente.
O que vemos na prática são ações para apagar incêndios, literalmente. O poder público age de forma atrasada e paliativa, tentando resolver o problema quando o caos já está instalado, no lugar de evitar que ele aconteça. Enquanto os cientistas avisam que o El Niño vai trazer um período de seca cada vez pior para a Região Norte, os governos locais focam apenas nos sintomas, deixando o verdadeiro problema de lado e fazendo quem tem menos sofrer mais.
O El Niño usado como desculpa na estratégia do Estado
Se você procurar nos documentos oficiais, não vai encontrar nenhum plano de ação feito exclusivamente para enfrentar o El Niño. Para o Governo do Estado, esse fenômeno do clima serve apenas como justificativa para acionar o velho “Plano de Crise Hídrica”. Na prática, a estratégia repete a mesma lógica assistencial de uma estiagem comum.
Essa falta de um planejamento direto prejudica a população por dois grandes motivos:
- A tragédia vira “normal”: Ao colocar o clima extremo intensificado pelo El Niño no mesmo pacote de secas comuns do meio do ano (verão amazônico), o Estado trata o problema como algo normal. Com isso, o governo repete a mesma receita de sempre, ano após ano, sem se comprometer a fazer mudanças reais. Naturalizando o fenômeno e a crise climática.
- A culpa é da falta da chuva: Focar os planos na “falta de água” ajuda o governo a não apontar o dedo para os verdadeiros culpados. É muito mais fácil culpar o oceano e o clima do que enfrentar grandes problemas estruturais, como a falta de planejamento e saneamento básico. Além de punir quem lucra com a destruição das florestas e dos rios.
O “curativo” da Prefeitura de Porto Velho
Na Prefeitura de Porto Velho, a situação segue a mesma lógica de improviso. Em matéria oficial, divulgada por sua agência de notícias, a gestão do prefeito Léo Moraes anunciou ações para enfrentar o “Super El Niño”, destacando a criação inédita de um Escritório de Governança e um Comitê de Crise Climática, coordenado pela Defesa Civil. A Prefeitura aposta alto no uso de tecnologias e no rigor da fiscalização para tentar passar uma imagem de controle absoluto.
O coordenador da Defesa Civil, Marcos Berti, declarou na matéria que o cenário exige “atuação integrada” por conta dos impactos na qualidade do ar e nível dos rios. No entanto, o que o município vende como “planejamento firme” serve apenas para expor duas grandes falhas com o povo:
- Problema global tratado como sujeira na rua: O prefeito Léo Moraes alertou que o El Niño trará calor extremo e fumaça, e afirmou que a estrutura está “reforçando a fiscalização e multando quem promove queimadas ilegais”. Mas focar o discurso quase que inteiramente no monitoramento de terrenos baldios e em pedir denúncias por WhatsApp é reduzir uma crise climática mundial a um problema básico de comportamento do cidadão e de limpeza urbana.
- O abandono no interior: A Prefeitura afirma que as novas medidas devem garantir a “segurança e dignidade das comunidades afetadas”, principalmente diante do risco ao abastecimento de água. Isso deixa claro um abandono histórico: é preciso forças-tarefas e escritórios de crise porque passou décadas sem levar água encanada e esgoto tratados para distritos e famílias ribeirinhas.
Segundo o relatório do Ranking Saneamento 2026, realizado pelo Trata Brasil, a situação de Porto Velho permanece estruturalmente grave, mantendo a cidade estagnada na 99ª posição (a penúltima colocação nacional). Com apenas 19,7% do esgoto tratado e o acesso à rede de água restrito a cerca de 30% da população, o município amarga um déficit histórico que penaliza diretamente a saúde pública e o meio ambiente.
Ao focar no “Super El Niño” como se fosse um inimigo imbatível e isolado, a Prefeitura usa o fenômeno como escudo. Cria-se um comitê e compra-se drones, mas a estrutura de bairros mais afetados continua a mesma. Isso faz com que a zona rural e comunidades mais pobres recebam a fiscalização que pune e o caminhão-pipa que remedia, mas nunca a obra que resolve de uma vez.
A injustiça com quem tem menos
Dizer para a população ribeirinha e moradores de bairros mais afastados de Porto Velho “se preparem para o impacto” é justo?
A maneira como o poder público formulou seus planos evidencia a injustiça social no estado. Na linha de frente dos impactos climáticos estão as populações mais vulneráveis, que residem em áreas de risco, margens de rios ou bairros desprovidos de infraestrutura básica. Embora essas comunidades sejam as que menos contribuem para a poluição global, são historicamente as primeiras a sofrer as consequências drásticas da degradação ambiental, enfrentando de forma direta secas extremas, isolamento e os efeitos nocivos da fumaça.
Em contrapartida, o cenário revela uma grave assimetria: os setores e indivíduos que mais desmatam e lucram com a destruição do bioma, permanecem praticamente imunes aos efeitos práticos da crise. Enquanto as populações periféricas e ribeirinhas lidam com o colapso ecológico no cotidiano, os principais responsáveis pelo problema dificilmente sentem o reflexo de suas ações na própria pele, ou na falta de água em suas torneiras.
Mandar caminhão-pipa quando a situação aperta é essencial, mas não resolve o futuro. Declarar “situação de emergência” todo ano facilita para o governo fazer aquisições e implementar ações imediatistas. O poder público local precisa construir obras duradouras e capazes de promover a adaptação dos municípios. A verdadeira prevenção seria garantir moradia segura e água encanada todos os dias do ano para a população.
Hoje, a propaganda oficial nos leva a acreditar que o grande culpado pela fumaça sufocante na cidade é o morador que queima folhas no quintal ou o dono de lote sujo. Embora essas práticas estejam erradas, essa insistência em culpar o pequeno esconde a responsabilidade dos grandes financiadores do desmatamento e do agronegócio na região, que são os que verdadeiramente destroem os mananciais e causam o grosso da fumaça na Amazônia.
Apagar o fogo e monitorar a situação com tecnologia ajuda hoje, mas não salva o nosso amanhã. Enquanto o Governo de Rondônia e a Prefeitura de Porto Velho não enfrentarem de verdade o modelo econômico que destrói o meio ambiente, a população continuará refém do clima extremo, pagando com a saúde e com a própria vida o preço de estratégias que só funcionam no papel e como conteúdo para redes sociais.



