Ao inventar falsas ameaças a produtores rurais sobre o Parna dos Povos Indígenas do Rio Tanaru, deputados anulam a razão e usam o medo como trampolim eleitoral do Sul de Rondônia
A criação do Parque Nacional dos Povos Indígenas do Rio Tanaru, no sul de Rondônia, representa um marco histórico para a proteção ambiental e reparação dos direitos humanos. Trata-se de um passo para conservar uma porção da Floresta Amazônica e, acima de tudo, eternizar a memória daquele que ficou conhecido como “Índio do buraco”. O indígena, que resistiu em isolamento por mais de 25 anos após ver todo seu povo ser exterminado, faleceu em 2022, deixando um legado global que virou símbolo de resistência. É fundamental registrar que a área do parque abriga, ainda, o sepultamento do indígena, consolidando o local como um espaço definitivo de preservação histórica.
Mas, na engrenagem política rondoniense, a história, a conservação e a ciência são jogadas de lado. No lugar de um debate sério sobre preservação, o que vemos é uma “indústria do medo” e a sanha por mais terras para o agronegócio.
Deputados federais de Rondônia lideram uma campanha de desinformação e juntos a outros políticos do estado incitam os produtores rurais da região e jogam a população e jogam a população contra o parque, estariam usando pânico como trampolim político e eleitoral?
A Disputa Judicial e o Pedido do MPF
A transformação da área onde vivia o indígena em isolamento em Parque Nacional não aconteceu por acaso; ela já contava com restrição de uso desde 2006 (Portaria FUNAI no 1.371/2006), mas era constantemente violada e alvo de uma disputa jurídica. Conforme revelado em reportagens do portal G1, o território passou a ser alvo de especulação fundiária por parte de fazendeiros que tentavam reivindicar a posse das terras.
Diante das ameaças de invasões, inclusive com registros de homens flagrados por câmeras escondidas invadindo a palhoça do indígena logo após o sepultamento, o Ministério Público Federal (MPF) fez uma intervenção. Para frear a disputa sobre a região, o MPF solicitou formalmente que o território fosse transformado em uma área de proteção socioambiental, defendendo que a União e a Funai já deveriam ter demarcado o espaço há muito tempo por se tratar de uma terra tradicionalmente ocupada.
Essa linha de defesa do MPF foi o que baseou a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) para aprovar o plano de criação da unidade de conservação, determinando que a área fosse protegida de forma definitiva para preservação da memória contra o extermínio.
Fatos Técnicos: O que é o Parque Nacional dos Povos Indígenas do Rio Tanaru?
Para desarmar os discursos inflamados, é preciso olhar para dados técnicos e jurídicos oficiais que dão base a criação unidade de conservação:
- Localização e tamanho: O parque abrange aproximadamente 7,6 mil hectares no cone Sul de Rondônia, dividindo municípios de Chupinguaia, Corumbiara, Parecis e Pimenteiras do Oeste.
- A farsa da perda de propriedades privadas: O discurso adotado tenta fazer o pequeno produtor acreditar que o governo vai tomar terras privadas legítimas ou fazendas produtivas. Isso é falso. Os 7,6 mil hectares do parque estão localizados integralmente dentro de terras públicas federais do domínio da União (a Gleba Corumbiara e a Gleba Corumbiara Setor Omerê). Não há nenhum título de propriedade privada reconhecido sendo confiscado ou incorporado. O discurso falacioso é a materialização da especulação fundiária e ameaça o único fragmento de floresta cercado por fazendas.
- Boatos de famílias sendo retiradas: Não há nenhuma família de agricultores sendo despejada. Como a área era protegida através de portarias de restrições de uso da Funai, nenhum particular tinha autorização para morar ou produzir ali dentro, sendo a área totalmente de floresta.
Biodiversidade e o “Vazio” do Genocídio
O território do rio Tanaru não é um “vazio inútil”, como afirma Fernando Máximo. O parque protege uma área de transição ecológica entre a Amazônia e o Cerrado, abrigando ecossistemas preservados, importantes recursos hídricos, sítios arqueológicos e rica biodiversidade, de refúgio para no mínimo 13 espécies ameaçadas de extinção.
Além da vasta biodiversidade, o parque carrega o peso de um “Sítio de Consciência” e Lugar de Memória Histórica Nacional. Dizer que a terra deve ser aberta ao gado porque o “Índio do Buraco” morreu é validar um crime de genocídio. O território ficou esvaziado porque frentes violentas de expansão agropecuária nas décadas de 1980 e 1990 cometeram um extermínio sistemático das comunidades originais da região e aqueles que sobreviveram fugiram ou passaram a viver em isolamento.
Amparado pela decisão do STF (ADPF 991), a justiça brasileira já consagrou que o extermínio de um povo não pode gerar lucros futuros para invasores ou grileiros. Diante de todas as evidências do papel social, histórico e ambiental da área, reconheceu-se a área como unidade de conservação com a assinatura do Decreto Presidencial nº 13.016, em 10 de junho de 2026.
Como Funciona a Estratégia de Manipulação do Medo
Para entender porquê esses políticos insistem tanto em atacar a criação do parque, é preciso olhar para os detalhes que estão por trás de seus discursos: uma estratégia que constrói uma narrativa de ameaça extrema para fazer com que a população rural entre em pânico, acreditando que vai perder o sustento de uma hora para outra. Esse mecanismo funciona em três etapas fáceis de identificar:
- Os deputados criam um “inimigo fantasma”, inventando que o Parque Rio Tanaru vai destruir a economia da região e tomar terras produtivas de trabalhadores.
- Com as pessoas aterrorizadas, o debate técnico e racional é totalmente destruído, pois o medo anula a razão e impede que a população consiga ouvir os fatos reais.
- Por fim, após espalhar o pânico e desorientar o público, os mesmos políticos apresentam-se como os “salvadores”, capazes de proteger as pessoas daquela ameaça que eles inventaram, garantindo votos e o apoio.
Manter o Parque Nacional do Rio Tanaru protegido é a garantia que as próximas gerações possam ter contato com uma Amazônia viva, conectada com o Cerrado e também com uma história que não foi silenciada pela impunidade. Enquanto o debate local for guiado por pânico e notícias falsas promovidas por políticos, o estado continuará preso a uma política que prefere apagar a história, gerar conflitos no campo e destruir o meio ambiente a enfrentar a verdade dos fatos.



